Qi Qong

QI GONG
- O Sorriso Interior –

A expressão Qi Gong (que se escreve também Chi Kung e de outras maneiras) evoca a idéia de um trabalho energético envolvendo o corpo, a mente e as emoções, isto é, o ser integral de um indivíduo. Por esse motivo, seu conceito vai muito para além do que convencionalmente se entende por “ginástica”, “educação física” ou “cultura do corpo”. Qi Gong está muito mais ligado à definição que os gregos antigos davam da palavra Paidéia, que originou o vocábulo pedagogia, isto é, “condução, orientação dos meninos para o fortalecimento e robustecimento do corpo, o domínio das emoções, o cultivo do intelecto e a elevação espiritual”. Tudo isto se encontra no Qi Gong.

Por meio de visualizações, emanações energéticas, meditação e de práticas corporais torna-se possível, gradualmente, dominarmos as pulsões, controlarmos as atitudes e elegermos uma conduta que nos readapte à Natureza, à qual pertencemos, mas da qual nos desviamos devido à artificialidade e à superficialidade, às quais nossa cultura consumista e demasiadamente materialista nos induz.
Sob o ponto de vista da Medicina Tradicional Chinesa, Qi Gong é uma das cinco modalidades terapêuticas, conjugando-se à Dietoterapia, à Fitoterapia, às Massagens Tui Na e à Acupuntura (e Moxabustão), todas utilizadas com o objetivo de prevenir doenças ou curá-las, por meio do equilíbrio energético do corpo, da mente e das emoções.
Ao contrário do que ocorre no Ocidente, em que são valorizadas a força física, a rapidez dos movimentos e a forma estética do corpo do atleta, o Qi Gong tende a ser uma prática interna, sem esforços musculares extremos, sem aceleração do ritmo cardíaco, sem elevação da pressão arterial, sem respirações forçadas e ofegantes.
Existem vários estudos comprovando que a sobrecarga dos sistemas orgânicos, além de poder levar à conquista de medalhas e fama, também reduz significativamente o período de vida de uma pessoa. A oxigenação excessiva produz radicais livres, responsáveis pela degeneração celular e pelo conseqüente envelhecimento precoce. Em contrapartida, os praticantes de artes corporais orientais podem não possuir corpos tão exuberantes, mas adquirem a capacidade de mobilizar energias interiores, de modo a conseguirem empregá-las para seu bem-estar, sua saúde e longevidade. Eles conseguem, inclusive, interferir nos sistemas energéticos de outras pessoas, podendo auxiliar os debilitados e adoentados a recuperarem sua sanidade. Interferem também, quando o desejam, nos campos energéticos ambientais, ajudando a livrá-los de influências que os desarmonizam. Esta comparação não tem o objetivo de menosprezar ou depreciar a ginástica Ocidental, enquanto se exalta a Oriental. O bom-senso não consiste em suprimir alguma técnica, mas em promover a integração delas, reconhecendo-as como mútuas aliadas na tarefa de manutenção de vida saudável, agradável e equilibrada.
Nenhuma prática corporal está isenta de contra-indicações, e o Qi Gong não se exclui da relação. Para todas elas existem precauções a serem tomadas. Por isso, o Qi Gong não é uma série exótica de exercícios mecânicos aleatórios, desenvolvidos para divertir o corpo e a mente; ele é um conjunto de procedimentos que envolvem consciência das relações corporais e energéticas, conjugação de movimentos sincronizados com respirações, tudo isto amparado por uma condição mental que propicia a compreensão de que o ser humano é um todo, do qual cada uma das partes ou funções deve ser considerada com cuidado e respeito. Não obstante, excetuando-se alguns casos especiais em que alguns exercícios não são recomendados (por exemplo: na gravidez não devem ser feitos movimentos de contração do períneo), a prática de Qi Gong é segura em todas as idades, para pessoas de ambos os sexos, sadias ou enfermas, esportistas ou sedentárias.
O Mestre Yvez Réquéna, em sua obra À la decouverte du Qi Gong, compara a prática de Qi Gong à higiene diária, enfatizando: “uma vez que lavamos nosso corpo, não lavaremos também nossa energia? Qi Gong lava, limpa, depura a energia individual. É como dar-se um banho interior, um banho de luz”. Esse banho é capaz de dar a sensação de limpeza interior, proporcionando até mesmo aos órgãos sensoriais que se tornem mais perceptivos, mais envolvidos no mister de ampliação do ser pessoal, porque dá a capacidade de captar melhor o mundo e a energia do Universo. Essa capacidade, na maioria dos casos, jaz dormente em nosso interior, visto estarmos a maior parte do tempo voltados para coisas externas, como as preocupações com os meios de subsistência, a aquisição de bens materiais ou a conquista de poder sobre os outros e sobre a própria Natureza. Entretanto, há ainda mais para além daqueles benefícios. Complementa o mestre, na mesma parte da obra supracitada: “a mesma sensação de limpeza se reproduz sutilmente no coração e no cérebro, isto é, no plano das emoções, da atenção e da consciência”.
Qi Gong está fundamentado na sabedoria taoísta, filosofia em que a Natureza é considerada dotada de suprema perfeição, no seio da qual agem forças opostas e complementares, indissociáveis e mutuamente dependentes: Yin e Yang. Por esse motivo, Qi Gong é um exercício de combinação de opostos: extensão e flexão; elevação e descenção; tensionamento e relaxamento; torção e retificação; abertura e fechamento; inspiração e expiração; etc. Assim, promove tudo aquilo que o corpo humano já é naturalmente apto a fazer. A diferença é que, para a prática de Qi Gong são necessárias “consciência” e “intenção”, os mesmos requisitos imprescindíveis para o aprendizado da “arte de viver”.
A consciência de que viver é uma arte nos remete ao mundo que nos circunda, ao mesmo tempo em que nos faz trazê-lo para nosso interior, pois não somos distintos ou separados dele. Ao contrário, nós nos completamos. A capacidade de percepção do que nos rodeia é uma arte, que aprendemos com o próprio viver, e quanto mais aprimoramos nossa percepção, maior se torna nossa consciência de fazermos parte da totalidade do Universo.
Qi Gong nos impulsiona a uma “atitude interna”, falando sobre maneira de respirar, sincronicidade dos movimentos, necessidade do concurso da consciência no decorrer da prática e na vida em geral, concentração e mentalização. Segundo seus propagadores, no ápice das Virtudes às quais nos leva o Qi Gong encontra-se o “Supremo Estado de Realização Energética” (Wu Ji), a “Energia Essencial”. Esse é o estado ao qual todo praticante de Qi Gong deve aspirar, no qual passa a não existir mais a impressão de que há “este sujeito aqui”, separado do que se encontra à sua volta, mas o senso de fazer-se um com o Todo, de emergir completamente no Ser.
Para chegar nesse ponto de fusão do “eu” com o Universo, é necessário o aprendizado da Meditação, consistente basicamente num “entregar-se ao agora”, deixando de lado as ilusões que são tanto o passado quanto o futuro. “Este aqui” é o único momento que existe para toda e qualquer pessoa, para todo e qualquer ser; por isso, a mente em estado de meditação não se empenha em controlar coisa alguma, não se deprime por aquilo que não realizou ou perdeu, não se angustia pelo que pode vir a acontecer: apenas sente o fluxo da existência e o vive intensamente, agora. Apesar de possuirmos esse conhecimento intelectual, não há quem não tenha experimentado as dificuldades de atingir e manter-se em estado de meditação. Todos estamos cientes a respeito dos empecilhos encontrados na senda que nos leva à Iluminação. Existem inúmeros atrativos que nos convidam com enorme força, e acabamos por colocá-los antes das práticas internas, que ficam preteridas. Qualquer distração, por insignificante que seja, é suficiente para afastar-nos do Qi Gong. Em função de toda agitação em que nos encontramos envolvidos, nossa mente resulta inepta a concentrar-se. Nossos órgãos internos saltitam em ebulição, gerando descompensações em nosso campo energético. Pelos canais, a energia flui desordenadamente, ficando estagnada em certas partes, enquanto que outras regiões sofrem carência dela, já que a energia ali não consegue chegar. No combate a esse desequilíbrio nefasto, os sábios taoístas criaram, entre outros, o exercício do Sorriso Interior. Por meio do Sorriso, que nada tem a ver com uma risada descomprometida e debochada (bem ao contrário!), no mesmo momento é possível fazer a atenção voltar-se para o agora e para o interior, levando paz e tranqüilidade aos Órgãos, às Vísceras e a todos os sistemas constituintes do nosso corpo e do nosso ser integral. Com o Sorriso, harmonizam-se todos os aspectos do nosso “eu”, propiciando-nos um estado adequado à meditação. Quando chegamos a esse nível de consciência, podemos passar a contribuir na busca da excelência das condições de existência de todo o Universo, com o qual formamos a unidade já mencionada.
Quando se fala em Sorriso Interior, imediatamente se tem a desconfiança de se lidar com uma “brincadeira”, e esse juízo não estará equivocado, pois existe aí uma brincadeira; porém, esse brincar é totalmente sério. Digamos que consiste em uma atividade lúdica. Pensemos por um momento nas crianças, quando brincam. Para elas, a brincadeira é algo bem sério. Quando estão brincando, essa atividade é um afazer que exige delas o seu empenho, e o fazem com paixão. A seriedade da criança não é aquela do adulto, domada pelos padrões impostos pela mente. A seriedade infantil é emotiva, emocionada, emocionante. Por isso, a criança fica envolvida, concentrada, como se meditasse: é o puro exercício do viver o agora. Para voltarmos, adultos que somos, a esse nível de consciência simples, desprendido, embora sério, basta-nos exercitarmos o Sorriso Interior.
Mesmo que às vezes alguns mestres defendam o princípio de que a prática de Qi Gong deva ser abandonada quando a mente está dispersa e não há condições de concentração, minha experiência me leva a julgar que a persistência finalmente rompe o esquema mental em que nos envolvemos, e, em dado momento, a mente se rende; é nesse ponto que o Qi Gong atinge seu auge. E não podemos esquecer-nos de que somente os movimentos, executados de maneira mecânica, apesar de perfeita, não nos levarão a esse clímax. Faz-se necessário o concurso de um sério comprometimento, de um desejo interior de vencer a evasão da mente, quando ela peleja contra nossa intenção de atingirmos um estado concentrado e meditativo. Mas é conveniente observarmos que “lutar contra a mente” não parece ser uma estratégia recomendável, já que ela, a mente, quando dedicada à sua atividade de dispersar nossa atenção, nutre-se justamente desse combate. Enquanto ocorre o embate, ela, a mente dispersiva, vence, deixando-nos inconscientes. Por isso, é aconselhável que concentremos nossa atenção nos pensamentos compulsivos que passam por nossa mente, sem julgá-los, sem digladiarmos com eles, sem nos esforçarmos para evitá-los, mas apenas aceitando-os como uma condição momentânea. É preciso tomarmos a postura do “observador” (conforme nos instrui o Mestre Eckhart Tölle em seu livro O poder do Agora), que vê agir essa mente compulsiva, mas se põe de maneira isenta nessa experiência. Ter a lucidez de perceber que “sou a consciência que se observa” me dá poder sobre a mente dispersiva: já não é mais ela que me domina, mas eu é que estou atento a ela. Nesse momento, vivo meu agora. Esta é uma maneira de meditar.
Em uma gravura contida na obra Cura Cósmica I: Chi Kung Cósmico, do Mestre Mantak Chia, contemplamos uma menina sorrindo para seus Órgãos e Vísceras, que sorriem de volta para ela, em uma brincadeira de intimidade da personagem consigo mesma. Ao sorrir, ela leva alegria e aceitação (isto é, Qi, energia) a eles. Esse é o fluxo energético do qual tanto se fala, a brincadeira “do” Qi e “com o” Qi, proporcionada pelo Qi Gong.

(Texto adaptado de parte de Trabalho de Conclusão de Curso, intitulado Fundamentos da Prática do Qi Gong: 12 Virtudes, Meditação e Sorriso Interior, apresentado à banca examinadora do CIEFATO/EBRAMEC, em maio de 2007)

Ricardo Gonçalves
(Mestre em Filosofia pela USP; com formação em: Artes Corporais Chinesas pelo CIEFATO/EBRAMEC; Reflexologia pelo Instituto Íntegra; Programação Neurolingüística pela Synapsis; Reiki por O Nosso Espaço; Florais de Bach pelo Espaço Kuan Yin)

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