Armas contra o stress


Bons tempos em que o estresse não passava de um chilique. O risco é entrar em estado de tensão permanente

- Explosões de raiva por qualquer motivo, insônia, enxaqueca, depressão, taquicardia, dor de estômago. O estresse manifesta-se de várias maneiras. Os sintomas, segundo a psicóloga Marilda Lipp, fundadora do Centro Psicológico de Controle do Stress e autora de 17 livros a respeito, como o recém-lançado Sentimentos que Causam Stress - Como Lidar com Eles (Editora Papirus), podem ser divididos em três categorias: físicos (náuseas, formigamento, enxaqueca, artrite, doenças cardiovasculares, diarreia, taquicardia, ranger de dentes, queda de cabelo, manchas de pele, entre outros); cognitivos (déficits de concentração e atenção, prejuízo de memória) e emocionais (medo, ansiedade e baixa estima).

De acordo com a psicóloga, antigamente o estresse era confundido com um chilique ou um ataque de nervos. Hoje, diz ela, os médicos já estão aptos a reconhecer os sintomas e até a população sabe identificar o problema:

- Perguntamos a 350 pessoas se sentiam que estavam estressadas e em que nível, numa escala de 1 a 5. Ficamos surpresos de verificar que a grande maioria conseguia se autodiagnosticar. Tivemos uma concordância de cerca de 80% entre a autopercepção e o diagnóstico dado por especialistas.

Com relação às profissões, estariam mais propensos ao estresse os policiais, juízes e pilotos de avião, afirma Marilda. E quem é mais estressado, o homem ou a mulher? Segundo ela, o estresse chega a ser duas vezes mais frequente no sexo feminino, independentemente das camadas sociais e faixas etárias:

- Há várias razões para isso, uma delas pode ter raiz na maneira como a sociedade trata a mulher desde criança, sempre disponível para atender às demandas de terceiros. Outra possibilidade seria a sobrecarga de trabalho. Ainda, surge como hipótese a forma como ela lida com os fatores de estresse. O homem, em geral, é "mais objetivo", parte logo para a resolução do problema. A mulher, muitas vezes, sofre e rumina os problemas, vivendo-os inúmeras vezes.

Como prevenção, o importante é saber utilizar, quando necessário, estratégias de enfrentamento, que podem ser aprendidas em qualquer momento da vida. Uma maneira eficaz, recomenda a psicóloga, é adotar hábitos de vida adequados - como a prática de esportes, passatempos, leitura, o autocuidado - e, acima de tudo, cultivar bons pensamentos. "Quando algo inevitável ocorrer em sua vida, tente dar a interpretação mais otimista possível. Não se recrimine por erros cometidos, nem fique agoniada com expectativas de que tudo vai dar errado. Mantenha sempre uma visão positiva e realista da vida, dos outros e de si própria. Esperar demais de qualquer um é, inevitavelmente, se expor a uma grande dose de decepção e estresse."

Em pequenas doses, o estresse melhora o desempenho e aumenta a produtividade. Porém, quando persiste e torna-se crônico, pode ter efeitos devastadores para a saúde e o bem-estar. Segundo o neurologista Rodrigo Schultz, professor de neurologia da Universidade Santo Amaro (Unisa), o estresse é sempre associado a coisas ruins, mas, na verdade, torna-se positivo ou negativo de acordo com a percepção de cada um. "Viver sob pressão é regra da vida moderna, e isso se aplica a crianças, jovens e adultos, principalmente na faixa dos 25 aos 40", diz ele, apontando algumas das preocupações frequentes hoje, como estudo, trabalho, dinheiro, saúde.

O gatilho do estresse é acionado quando a pessoa se defronta com uma situação de ameaça, seja ela objetiva ou subjetiva. "As glândulas suprarrenais são, então, encarregadas de fabricar os hormônios relacionados ao estresse: adrenalina, noradrenalina e cortisol." Com isso, pode ocorrer falta de ar, tensão muscular, taquicardia e aumento da pressão arterial e das taxas de colesterol.

Fazer algum tipo de atividade física ajuda, mas, segundo o médico, é preciso organizar as atividades, executando-as por ordem de urgência. "Não adianta começar alguma tarefa, deixá-la pela metade, começar outra e assim por diante. Daí o ditado: tudo a seu tempo. Também é fundamental se dedicar a um hobby ou passatempo", comenta.

O estresse não causa doenças, mas sim propicia o seu desenvolvimento, porque enfraquece o organismo e reduz a resistência. No topo da lista, estão as doenças cardiovasculares, como AVC (acidente vascular cerebral), enfarte do miocárdio, crise de hipertensão. "Também facilita o surgimento de resfriados, infecções e tumores." Podem ocorrer casos de depressão, pânico, medo de sentir medo (quando a pessoa sofre só de pensar que pode passar por um assalto, por exemplo) e transtorno de estresse pós-traumático.

Quanto ao tratamento, informa o médico, varia caso a caso e de acordo com os níveis do estresse. A medicação é indicada em situações críticas ou agudas, quando entram os antidepressivos, que propiciam solução imediata. "Mas vale lembrar que a vida nos submete a pressões cada vez maiores e não se pode tomar remédios a vida toda. É preciso aprender a lidar com as tensões."

Cientistas dos Estados Unidos afirmam que ouvir música pode ajudar no tratamento de pessoas que sofrem com estresse associado a doenças coronárias. Sendo assim, a música teria o poder de diminuir a pressão arterial, o ritmo cardíaco e os níveis de ansiedade nesses pacientes. A coordenadora do Curso de Musicoterapia da FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), Maristela Smith - formada em Musicoterapia pelo Centro Universitário do Conservatório Brasileiro de Música e com mestrado em Psicologia pela Universidade São Marcos -, endossa os benefícios da música para a saúde física e mental:

- É utilizada para aumentar, manter ou restaurar um estado de bem-estar. Os especialistas veem vários benefícios, como melhora da coordenação motora, redução da ansiedade, do sentimento de solidão e da depressão, reforço no sistema imunológico e estímulo ao convívio social.

Que tipo acalma? Se você pensou exclusivamente em música clássica, errou. Segundo Maristela, não há um receituário. Cada pessoa traz na sua bagagem de vida um repertório musical e afetivo próprios. "Pegue um caderno e faça uma lista, anotando por ordem de importância músicas que marcaram sua vida, quando tinha 5 anos, 15 anos, o primeiro beijo ou quando se casou, e faça um CD. Leve na bolsa, ouça no trânsito ou mesmo faça uma pausa no escritório. Bastam dez minutos por dia para restabelecer a calma."

Algumas dicas ajudam a potencializar os efeitos da música. "Existe uma grande diferença entre ouvir e escutar. É fundamental escolher um ambiente calmo, sem interferências de ruídos, de forma que se processe os sons mentalmente", recomenda.

Segundo Tereza Mello, da ONG Brahma Kumaris, a meditação raja ioga consiste na criação de pensamentos construtivos e elevados, de natureza espiritual, visando a estabelecer um estado mental de harmonia e tranquilidade interna. "Fisicamente, nos sentimos mais dinâmicos e leves e, mentalmente, a clareza aumenta."

Ter um ambiente propício para se concentrar ajuda bastante, mas não é pré-requisito, uma vez que o mais importante é manter uma atitude positiva. Quanto ao tempo dedicado à meditação, depende do que o praticante quer alcançar. "Para os iniciantes, é aconselhável dez minutos por dia. Depois esse tempo vai aumentando gradualmente."

Atenção à respiração: "Na medida em que a velocidade dos pensamentos é reduzida, podemos eliminar as inutilidades internas e, com isso, naturalmente, a respiração torna-se mais lenta." Para quem quiser saber mais a respeito, a ONG (www.bkwsu.org/brasil) oferece cursos mensais de meditação.

De acordo com a psicóloga Maria Aparecida das Neves, educadora especializada em terapia complementar e à frente da DisqFloral & Aromaterapia, os óleos essenciais são os antioxidantes poderosos da natureza: varrem os radicais livres do organismo, ajudando a manter o estado de bem-estar. "São grandes aliados femininos, pois ajudam a limpar os sentimentos negativos e emoções bloqueadas, eliminando a raiz que gera doenças ou condições para que elas se manifestem."

Com anos de experiência em florais de Bach, a terapeuta sugere a complementação do relaxamento aromaterápico com música instrumental. "Acabamos de lançar um CD com 38 músicas compostas e executadas pelos músicos Adriano Grinberg e Edu Gomes, feitas sob medida para cada uma das essências catalogadas pelo médico inglês Edward Bach."

Quando se pensa em aromaterapia, um item muito importante é checar a procedência dos óleos, uma vez que sua absorção (por via respiratória e pela pele) é quase que imediata, diz a terapeuta. Nem todas as pessoas têm informações de como utilizá-los no dia a dia: "Para definir que óleo escolher, primeiro é preciso fazer uma autoavaliação. Se a ideia é relaxar, o mais conhecido é o de lavanda. Mas também podem ser usados os de camomila romana ou bergamota."

É possível beneficiar-se dos óleos essenciais por meio de inalação a vapor, vaporização no ambiente, escalda-pés, banho aromático (na banheira) e automassagem localizada. O óleo essencial deve sempre ser misturado ao óleo vegetal de base. A diluição indicada é de 1 ml de óleo essencial para 50 ml de óleo de base. O ideal é usar os óleos pela manhã ou à noite, descansada.

O marroquino Amal Hanafi escolheu o Brasil para divulgar as atividades da AYASPA, empresa especializada no gerenciamento de spas de luxo. Segundo ele, a indústria do bem-estar movimenta hoje mais de US$ 1 trilhão por ano, impulsionada pelo estilo de vida cada vez mais estressante e por perspectivas mundiais de longevidade. Hanafi quer apresentar aos brasileiros um novo conceito, em voga entre os europeus: "Com origem no Marrocos, o hammam é um ritual ancestral de limpeza e purificação do corpo e da alma. A palavra vem de 'hamma' (esquentar, em árabe) e oferece um relaxamento com aromaterapia, esfoliação, máscara e massagem drenante." Os cariocas serão os primeiros a desfrutar do relax de luxo.

FONTE: O ESTADO DE S.PAULO - SUPLEMENTO FEMININO - 28/06/2009

JORNALISTA: VERA FIORI

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